A IA impulsiona o crescimento da China, enquanto a demanda interna permanece fraca
Em maio, a economia chinesa pareceu dividida entre duas realidades paralelas. De um lado, um forte boom manufatureiro impulsionado pela inteligência artificial; de outro, a contínua fraqueza do consumo doméstico. Analistas do Citi observam que esse superciclo tecnológico é atualmente o principal fator por trás da melhora dos indicadores agregados do país.
A produção de bens de alta tecnologia, incluindo semicondutores, robótica e veículos elétricos, registrou o ritmo de crescimento mais acelerado dos últimos cinco anos. Esse desempenho fortaleceu o setor industrial e impulsionou as exportações. Segundo o Citi, também houve uma aceleração significativa dos investimentos em telecomunicações e propriedade intelectual.
Por outro lado, o mercado interno apresenta um quadro preocupante. As vendas no varejo recuaram acentuadamente, registrando a primeira queda desde a pandemia e ficando abaixo até mesmo das previsões mais pessimistas. O crescimento dos investimentos caiu para o menor nível em um ano. O Citi alerta para o aumento dos riscos de estagflação na economia chinesa, caracterizada por preços ao consumidor relativamente estáveis e preços ao produtor em alta, que já não podem ser explicados apenas pelos custos de energia.
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo setor de consumo, os avanços na inteligência artificial estão ajudando a economia a se manter resiliente. O Citi manteve inalteradas suas projeções de crescimento do PIB para o segundo trimestre e para todo o ano de 2026, prevendo estabilidade no segundo semestre em função dos efeitos de uma base de comparação baixa.
Ao mesmo tempo, os analistas acreditam que Pequim não recorrerá à emissão monetária, optando por medidas de apoio mais direcionadas. Em julho, espera-se que o Politburo chinês, principal órgão decisório do Partido Comunista, discuta questões relacionadas à renda das famílias, embora o limiar para a adoção de estímulos amplos permaneça elevado. Não são esperadas expansões do déficit orçamentário nem novas cotas de emissão de títulos públicos, embora cortes modestos nas taxas de juros continuem possíveis até o final do ano.
A atual divisão ilustra claramente que a tecnologia e as exportações estão impulsionando o crescimento do país, enquanto o setor privado e as famílias continuam ficando para trás. Esse cenário é agravado pela prolongada crise imobiliária, pelo consumo ainda fraco desde a pandemia de COVID-19, pelas guerras comerciais com os Estados Unidos e pelas crescentes tensões no Oriente Médio em 2026. Diante desses riscos, Pequim já havia estabelecido uma meta de crescimento econômico mais conservadora para o ano em curso.